sexta-feira, 8 de abril de 2011

Em cheque



 



Minha alma é chocolate
Meu coração sangra em escarlate
Minhas mãos — violeta
Tenho pele, pêlos
E falta de costumes costumeiros
Oh, ser tão contraditoriamente inamável!
Inenarrável.
Inalterável.
Ou alterável, pois sim.

Meu cheiro — enxofre
Meu sabor ativar-lhe-á as papilas
 
Sou o veneno.
A linha tênue
A esfera que a corta?
Pois, como assim?
Em minhas mãos existem a arte.
A arte de contradizer-se por si só.
 
Tão corriqueira quanto o fogo
Que queima-lhe os jornais
Durante as tardes de Sol
Em que nada se faz
Além de lamentar
 
Sussurros, talvez.
Mas tão diluíveis quanto à água.
Sou apenas mais uma gota
No rio de lagrimas que és o oceano.

Duda Carvalho
 

quinta-feira, 24 de março de 2011



(...) cada sociedade, considera um momento determinado do seu desenvolvimento, tem um sistema de educação que se impõe aos individuos como uma força geralmente irresistivel. É inutil pensarmos que podemos criar nossos filhos como queremos. Há costumes com os quais temos que nos conformar. Se os infringimos, eles vingam-se em nossos filhos. Estes, uma vez adultos, não se encontrarão em condições de viver no meio dos seus contemporânios, com os quais não estão em harmonia. Que tenham sido criados com ideias muito arcaicas ou prematuras não importa; tanto num caso como noutro, não são do seu tempo e, por conseguinte, não estão em condições de vida normal. Há pois, em cada momento do tempo, um tipo regulador de educação de que não podemos desligar sem chocar com as vivas resistências que reprimem as veleidades das dissidências.


Émile Durkheim  

domingo, 20 de março de 2011

Coisas Frageis - Guspidas e Escarradas



Tenho sempre a sensação de estar atrasada....
Me sinto como o coelho branco.... tendo que correr desesperadamente para alcançar algo que esta constantemente fugindo de mim.
As pessoas pedem calma, que estou indo depressa demais... Mas como??,  se o tempo ainda é curto e o pior, ELE NÃO PARA.

Nesse ano eu descobri o real significado da famosa frase "tempo é dinheiro"...
Na verdade acho que tempo vale muito mais do que dinheiro... pois dinheiro você recupera, e o tempo que se foi, o tempo perdido, não volta mais.

Não sei se estou fazendo certo, não sei se estou fazendo direito, muitas vezes não sei nem mesmo o que estou fazendo.... mas eu faço, como um investimento que eu nunca fiz antes, é como se agora fosse realmente,  pra valer.

Zózimo


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Os outros




- O tempo é fluido por aqui – disse o demônio.
Ele soube que era um demônio no momento em que o viu. Assim como soube que ali era o inferno. Não havia nada mais que um ou o outro pudessem ser.

A sala era comprida, e do outro lado o demônio o esperava ao lado de um braseiro fumegante. Uma grande variedade de objetos pendia das paredes cinzentas, cor de pedra, do tipo que não parecia sensato ou reconfortante inspecionar muito de perto. O pé-direito era baixo, e o chão, estranhamente diáfano.

- Chegue mais perto – ordenou o demônio, e ele se aproximou.
O demônio era esquelético e estava nu. Tinha cicatrizes profundas, que pareciam ser fruto de um açoite ocorrido num passado distante. Não tinha orelhas nem sexo. Os lábios eram finos e ascéticos, e os olhos eram condizentes com os de um demônio: haviam ido longe demais e visto mais do que deveriam. Sob aquele olhar, ele se sentia menos importante do que uma mosca.

- O que acontece agora? – ele perguntou.
- Agora – disse o demônio com uma voz que não demonstrava sofrimento nem deleite, somente uma horripilante e neutra resignação – você será torturado.
- Por quanto tempo?
O demônio balançou a cabeça e não respondeu. Ele percorreu lentamente a parede, examinando um a um os instrumentos ali pendurados. Na outra extremidade, perto da porta fechada, havia um açoite feito de arame farpado. O demônio o apanhou com uma de suas mãos de três dedos e o carregou com reverência até o outro lado da sala. Pôs as pontas de arame sobre o braseiro e observou enquanto se aqueciam.
- Isso é desumano.

- Sim.
As pontas do açoite ganharam um baço brilho alaranjado.
- No futuro, você vai sentir saudade desse momento.

- Você é um mentiroso.

- Não – respondeu o demônio. – A próxima parte é ainda pior – explicou pouco antes de descer o açoite.

As pontas do açoite atingiram nas costas do homem com um estalo e um chiado, rasgando as roupas caras. Elas queimavam, cortavam e estralhaçavam tudo o que tocavam. Não pela última vez naquele lugar, ele gritou.
Havia duzentos e onze instrumentos nas paredes da sala, e com o tempo, ele iria experimentar cada um deles.
Por fim, a Filha do Lazareno, que ele acabou conhecendo intimamente, foi limpa e recolocada na parede na duocentésima décima primeira posição. Nesse momento, por entre os lábios rachados, ele soluçou:

- E agora?

- Agora começa a dor de verdade – informou o demônio.
E começou mesmo.
Cada coisa que ele fizera que teria sido melhor não ter feito. Cada mentira que ele contara – a si mesmo ou aos outros. Cada pequena mágoa, e todas as grandes mágoas. Cada uma dessas coisas foi arrancada dele, detalhe por detalhe, centímetro por centímetro. O demônio descascava a crosta do esquecimento, tirava tudo até sobrar somente a verdade, e isso doía mais que qualquer outra coisa.

- Conte o que você pensou quando a viu indo embora – exigiu o demônio.

- Pensei que meu coração ia se partir.

- Não, não pensou – contestou o demônio, sem ódio. Dirigiu seu olhar sem expressão para o homem, que se viu forçado a desviar os olhos.

- Pensei: agora ela nunca vai ficar sabendo que eu dormia com a irmã dela.

O demônio desconstruiu a vida do homem, momento por momento, um instante medonho após o outro. Isso levou cem anos ou talvez mil – eles tinham todo o tempo do universo naquela sala cinzenta. Lá pelo final, ele percebeu queo demônio tinha razão. Aquilo era pior que a tortura física.
Mas acabou.

Só que, quando acabou, começou de novo. E com uma consciência de si mesmo que ele não tinha da primeira vez, o que de certa forma tornava tudo ainda pior.
Agora, enquanto falava, se odiava. Não havia mentiras nem evasivas, nem espaço para nada que não fosse dor e ressentimento.

Ele falava. Não chorava mais. E, quando terminou, mil anos depois, rezou para que o demônio fosse até a parede e pegasse a faca de escalpelar, ou o sufocador, ou a morsa.
- De novo – ordenou o demônio.
Ele começou a gritar. Gritou durante muito tempo.
- De novo – ordenou o demônio quando ele se calou, como se nada houvesse sido dito até então.

Era como descascar uma cebola. Dessa vez, ao repassar sua vida, ele aprendeu sobre as conseqüências. Percebeu os resultados das coisas que fizera; notou que estava cego quando tomou certas atitudes; tomou conhecimento das maneiras como inflingira mágoas ao mundo; dos danos que causara a pessoas que mais conhecera, encontrara ou vira. Foi a lição mais difícil até aquele momento.
- De novo – ordenou o demônio, mil anos depois.

Ele agachou no chão, ao lado do braseiro, balançando o corpo de leve, com os olhos fechados, e contou a história de sua vida, revivendo-a enquanto contava, do nascimento até a morte, sem mudar nada, sem omitir nada, enfrentando tudo. Abriu seu coração.
Quando acabou, ficou sentado ali, de olhos fechados, esperando que a voz dissesse: "de novo". Porém, nada foi dito. Ele abriu os olhos.

Lentamente, ficou de pé. Estava sozinho.

Na outra ponta da sala havia uma porta, que, enquanto ele olhava, se abriu.
Um homem entrou. Havia terror em seu rosto, e também arrogância e orgulho. O homem, que usava roupas caras, deu alguns passos hesitantes pela sala e parou.

Ao ver o homem, ele entendeu.
- O tempo é fluido por aqui – disse ao recém-chegado.



Neil Gaiman - "Os outros"

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Fix You.....

 
 
"Quando você tenta o seu melhor, mas não tem sucesso.
Quando você consegue o que quer, mas não o que precisa.
Quando você se sente cansado, mas não consegue dormir.
Preso em marcha ré.
 
 


 
Quando as lágrimas começam a rolar pelo seu rosto.
Quando você perde algo que não pode substituir.
Quando você ama alguém, mas é desperdiçado.
Quando você está muito apaixonado para deixar ir embora.




Luzes vão te guiar até em casa
E aquecer teus ossos
E eu tentarei, consertar você."

Coldplay
(fix you)